O seu destino é mesmo seu?

Que destino poderá controlar se a sua opinião for manipulada ou se a sua casa, meio de transporte ou telecomunicações forem remotamente controlados por outros?

O nosso destino somos nós que o construímos. É provavelmente o mais forte e acarinhado fundamento de uma Democracia. Cada um pode ser o que quiser, só depende de si. Mas será mesmo assim? Os tempos mudam, tal como mudam os ataques a essa liberdade, dando superior importância a uma frase pragmática de Jack Welch: “controle o seu destino ou alguém o fará por si”.

O problema é que, paradoxalmente, num mundo globalizado, com aparente maior liberdade de escolha e de decisão, a realidade é que essa capacidade de controlo está cada vez mais ameaçada. Tudo devido a uma simples premissa: o que antes era atingido somente anos, décadas ou séculos depois, utilizando o poder de enormes máquinas militares, de propaganda ou espionagem, hoje é alcançável com um singelo computador com acesso à internet, capaz de atacar rapidamente e em simultâneo grande parte da população mundial.

Por estes dias, nos Estados Unidos, o tema quente é a possível ligação, directa ou indirecta, de Trump aos ataques e manipulação das eleições presidenciais de Novembro passado por parte da Rússia. Atente, não está em causa que tal tenha acontecido no pináculo do nosso exercício de liberdade. Decidir quem nos vai governar, isso é já indiscutível e suportado por todas as agências de inteligência do país, sendo que os últimos dados apontam para ataques em 39 dos 50 Estados.

Mas o ocorrido está longe de ser novidade. Em 2015 a rede do Parlamento alemão foi alvo de um ataque cibernético que levou 16 gigabytes de informação. Imagine a logística necessária para tal operação noutra era, a quantidade de agentes e de tempo que seriam necessários para infiltrar, extrair e analisar quantidades avultadas de informação de uma instituição protegida. Desta feita, o ataque só foi descoberto uma semana depois do seu início e sem provas inequívocas o mesmo poderá ter sido perpetrado pelo Pawn Storm, um grupo com ligações às agências russas de inteligência. O objectivo seria interferir nas eleições de 2017, enfraquecendo Merkel, crítica de Putin, e reforçar o peso da extrema-direita.

Já depois disso, no início deste ano, dois think tanks ligados aos dois principais partidos alemães, o CDU e o SPD, foram alvo de ataques por parte do mesmo grupo. Talvez por isso as forças armadas alemãs tenham criado uma unidade de cibersegurança, que terá 12.000 soldados e 1.500 civis (Bloomberg). O objectivo é proteger a infra-estrutura crítica do país, como o sistema energético, hospitais e redes militares, que só em 2017 já foram alvo de 820.000 ataques.

No Reino Unido a estratégia é a mesma. Os serviços de inteligência, MI5 (interno) e MI6 (externo), têm reforçado substancialmente os seus quadros, concretamente no sector da cibersegurança. Adicionalmente, o Government Communications Headquarters (GCHQ), similar à NSA (EUA), tem em marcha um programa nacional de cibersegurança no valor de 2,6 biliões de dólares, que inclui uma parceria estratégia com start-ups tecnológicas com vista à criação de sistemas destinados a proteger o país de ciberataques.

E se os campos político e económico são dois alvos de eleição para os ciberataques, outro que dá agora os seus primeiros passos rumo à sua afirmação no panorama global, poderá ter implicações directas ao nível da segurança do cidadão individual: a Inteligência Artificial (IA). Como se não bastasse a IA poder vir a causar uma enorme disrupção do mercado trabalho, se não for implementada correctamente, também o novo mundo cibernético poderá ser palco de acções de terrorismo em massa.

Imagine o que seria, não um, como nos recentes ataques terroristas, mas centenas de carros, autónomos e remotamente controlados por um terrorista cibernético, tal como retratado numa das cenas mais intensas do novo filme da saga Fast & Furious. Se acha que é apenas ficção, recordo que raramente essa ficção não antecipou ou retratou factos futuros ou passados, mas desconhecidos na altura. E se acha que tal não seria possível, lanço o desafio de encontrar um sistema ou instituição que, até hoje, não tenha sido alvo de um ataque cibernético bem sucedido.

Num mundo que caminha para a sua quase totalidade cibernetização, o que temos de perguntar é: o que estamos a fazer estrategicamente para controlar o nosso destino, antes que alguém o faça por nós? Que destino poderá controlar se a sua opinião for manipulada ou se a sua casa, meio de transporte ou telecomunicações forem remotamente controlados por outros? Já peca por tardia a criação de uma força de segurança cibernética, com amplos recursos, redefinindo o papel/estrutura das forças armadas e assegurando a indispensável coordenação com o mundo civil, nomeadamente no apoio às start-ups de cibersegurança.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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