Onde anda o conhecimento sobre o campo cultural-artístico?

Precisamos de conhecimento global, regularmente atualizado, que possa informar, mas também enformar políticas, práticas e interrogações críticas alargadas a todo o espaço público.

Foi lançado na semana passada o relatório da auscultação às entidades artísticas encomendado ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL), para suporte ao novo modelo de apoio às artes. Esse estudo, coordenado por José Soares Neves, é, na minha opinião, importantíssimo para o conhecimento das artes e da cultura em Portugal, e, em particular, de uma dimensão crucial das nossas políticas culturais: o, como o título indica, do “Posicionamento das Entidades Artísticas” quando está(va) em causa a criação de um novo modelo de apoio.

O estudo agora disponível respondeu a uma necessidade política e pragmática. Ou melhor, respondeu à assunção pública de que a criação de um modelo de apoio careceria de suporte de conhecimento, presumivelmente inexistente – a qual podia, evidentemente, não ter tido lugar, pelo que nos regozijamos por esta oportunidade para dispormos de informação e análise atualizada sobre o campo cultural-artístico.

E é sobre essa oportunidade que vale a pena refletir um pouco.

Portugal tem manifestado uma dinâmica cultural-artística que dá conta de qualidade, consistência, renovação, inovação… e de uma enorme resiliência em face dos constrangimentos que conhecemos – não se reduzindo estes apenas à crise recente, nem ao subfinanciamento crónico. O que realmente sabemos sobre essa dinâmica e as suas condições de ação e evolução, porém, advém sobretudo de uma fragmentação. Por um lado, a produção estatística continua pobre e cada vez mais dependente dos aspetos económicos (economicistas, para ser mais precisa).

A título de exemplo, veja-se como a criação da conta satélite para a cultura – cuja necessidade reconhecemos – abafou em parte as já parcas possibilidades de informação especificamente cultural (práticas, financiamentos, organizações, atividades, políticas…). Por outro lado, continuam a faltar condições estruturais para estudos e investigações continuados e integrados, sejam eles aplicados (como este estudo) ou fundamentais (obedecendo aos propósitos mais estritos da produção científica).

Não que não haja estudos, ou que eles não sejam de qualidade. O ponto é que precisamos de conhecimento global, regularmente atualizado, que possa realmente informar (como neste estudo se justifica), mas também enformar – políticas e, mais generalizadamente, práticas e interrogações críticas alargadas a todo o espaço público.

É neste quadro que saúdo o que espero seja o primeiro conjunto de resultados do estudo: dá-nos, como não tínhamos há muito, um quadro geral sobre uma amostra de entidades artísticas; e explora franjas, desvios, outliers, compondo uma riqueza de pontos de vista não redutível ao retrato geral. Nessa relação entre geral e particular, percebemos a diversidade intrínseca a um campo que, por definição, é composto de agentes singulares e diferenciados entre si (artistas).

Um dos resultados interessantes, talvez mais surpreendente para uns do que para outros, é o facto de, quando solicitados, os agentes se terem pronunciado: a amostra das entidades que responderam ao inquérito da equipa que realizou o estudo mostra que os artistas não se arredam assim tanto de tomar posição dentro de quadros institucionais.

E, mais uma vez, a diversidade de agentes e dos seus posicionamentos traz-nos a possibilidade de uma leitura para lá dos que, casuisticamente, foram sempre tendo voz, e nesse sentido, de alguma forma enviesando a nossa própria leitura da realidade.

Assim, o caráter, digamos, utilitário, imediatista, pragmático (político também, claro), que orientou este estudo (não podemos fugir a esses conceitos), não belisca, na minha opinião, a imensa oportunidade (já o disse atrás) que ele constitui para todos aqueles que trabalham nesta área (não apenas os políticos) e que podem pensar sobre ela. Justamente, não estou a discutir a relação do estudo com o modelo de apoio criado – na minha opinião, não é a ele que deve imputar-se o insucesso do modelo.

Gostaria que esta encomenda não ficasse – como outras anteriores, noutras governações – por apenas isso mesmo, e que se recriasse a possibilidade de produzir continuadamente conhecimento estrutural e estruturado sobre o nosso campo cultural-artístico (também para as necessárias comparações internacionais, em especial europeias). Seria preciso investimento, sim, e sabemos que os tempos não estão de feição – mas não seria um investimento exorbitante, e os retornos seriam seguramente positivos. Sem nos conhecermos, não nos desenvolveremos…

Se não, pensemos seriamente em colocar os artistas em “lugares mais úteis”, como há muitos anos escrevia Manuel António Pina sobre os poetas:

A poesia vai acabar, os poetas

Vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao

entrar numa repartição pública. (…)

1966. In Todas as Palavras. Poesia reunida, Assírio e Alvim, 2012.

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