Onde os Rios Têm Marés: Narrativa feita de humor e sinceridade

Nunca consigo ficar em Islamabade. Para além de não entender a cidade, tudo me parece mais importante do que esta capital verde e extensa, impossível de explorar a pé (…). Pelo que me diz respeito, uma vista de olhos à bela mesquita de Faisal e às colinas de Margalla, e estamos prontos a continuar a viagem.”

É assim que começa o livro em que Ana Isabel Mineiro narra a sua viagem, deslocando-se apenas em transportes públicos ou a pé, pelo norte do Paquistão até à cidade chinesa de Kashgar, ponto importante da Rota da Seda, ainda hoje famosa pelo seu enorme mercado diário.

Setenta anos após a partição da Índia Britânica, e numa altura em que a China investe fortemente na revitalização da Rota da Seda – desta vez a nível quase mundial, ao incluir África, a Europa e até a América –, muitas pessoas não saberão muito sobre o Paquistão. Umas ideias já algo vagas sobre Babur, descendente de Tamerlão e de Gengis Khan, que no século XVI fundou a dinastia Mogol; a separação da Índia, em 1947, e os eternos conflitos por causa de Caxemira. De fora fica quase tudo: as paisagens deslumbrantes do norte, na fronteira com o Afeganistão e a China, particularmente montanhosa, onde se encontram as cordilheiras dos Himalaias, Karakorum e Hindu Kush; Budas gravados na rocha, no século VIII (felizmente ainda não destruídos como os do Vale de Bamyian, no Afeganistão); pequenas aldeias como oásis verdes no meio da “rocha pura em tons de castanho e cinzento”; a “belíssima manta de arrozais em cores de água, terra e verde-vivo”; o chá feito com leite em vez de água, como na Índia; a hospitalidade do povo e a estranheza perante as mulheres ocidentais, seres bastante exóticos para os costumes locais; o urdu, língua oficial, que contém muitas palavras portuguesas.

É este país, onde é proibido por lei mudar de religião, que Ana Mineiro descreve com deslumbramento, humor e sinceridade, não escondendo os inevitáveis incómodos para quem viaja nestas condições. Mas o prazer da viagem é notório na escrita da autora, nascida em Vila Nova de Gaia. Ana Mineiro foi professora no ensino secundário até 1995, ano em que optou por se dedicar completamente às viagens, escrevendo e fotografando e, mais recentemente, acompanhando pequenos grupos de viajantes para uma agência que conjuga viagem e fotografia, a destinos tão díspares como a Patagónia, Sri Lanka ou Bolívia. Colaborou com publicações como a Grande Reportagem, Volta ao Mundo e Rotas & Destinos e com o suplemento Fugas do Público. Hoje, podemos seguir as suas paixões (que não se limitam às viagens, incluindo também comida vegetariana) no seu blogue Comedores de Paisagem.

“Onde os Rios Têm Marés. Viagem pelo Norte do Paquistão e Estrada do Karakorum” é editado pela Via Óptima.

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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