Os cedros dos deuses

Entre florestas prisioneiras de interesses económicos, e governos e corporações reféns de combustíveis fósseis, estamos a aproximar-nos rapidamente do ponto de não-retorno.

Na mitologia mesopotâmica, conta-se que as extensas e belas florestas de cedros que cobriam as montanhas do Líbano eram o reino glorioso dos antigos deuses da Mesopotâmia há quase 5.000 anos. O deus Enlil profetizara que se fosse permitido aos humanos entrar nas florestas, estes destruiriam a sua beleza divina. A batalha entre os semideuses e humanos pela floresta dos cedros está narrada no épico “Gilgamesh”, escrito cerca de 2.100 a.C.. Gilgamesh, rei de Uruk, não só derrotou os deuses, como também começou a cortar a madeira dos cedros para ajudar a construir a sua cidade.

E assim começou o longo declínio dos cedros do Líbano. Ao longo dos séculos, a madeira preciosa foi usada pelos fenícios para construir a sua frota mercante, que os levou a todo o mundo. Os egípcios utilizaram a resina para embalsamar as suas múmias e criar rolos de papiro. A expansão do Império Romano às províncias do Levante causou grande mal aos cedros até o Imperador Adriano os declarar como seu domínio imperial. Mais. Na Bíblia revela-se que parte das florestas dos cedros do Líbano foi cortada para construir o grande templo de Salomão, em Jerusalém.

Mas foram sobrevivendo. Da paixão de Cristo às Cruzadas, passando pelo império Otomano, a I e II Guerra Mundial e a Guerra Civil Libanesa, os cedros resistiram. Atualmente, porém, já só restam algumas reservas de majestosos cedros milenares nas montanhas do Líbano. A resiliência do cedro tornou-se assim o símbolo da resiliência do próprio país ao longo da sua turbulenta História.

Agora, soam os alertas. Os cedros podem estar condenados à morte devido às alterações climáticas. É uma árvore forte, capaz de sobreviver a condições inóspitas, mas se as temperaturas continuarem a subir, os cedros serão incapazes de resistir a um clima seco e quente.

A notícia dos cedros coincide com uma conjugação invulgar de fatores climáticos, que provoca ondas de calor extremas, às quais poucos continentes saem incólumes. No Japão, a vaga de calor já causou mais de 40 mortos. A Suécia enfrenta incêndios florestais para os quais não está preparada, as mortes causadas pela onda de calor no Canadá lotaram completamente as morgues e, enquanto escrevo esta crónica, da Grécia chegam notícias trágicas de grandes incêndios semelhantes aos que ocorreram em Portugal no verão de 2017.

Mesmo perante toda a evidência, continuamos a não tomar qualquer ação urgente para reduzir drasticamente a interferência humana no planeta. Entre florestas prisioneiras de interesses económicos, governos e corporações reféns de combustíveis fósseis, e um modo de vida que se tornou demasiado tóxico, estamos a aproximar-nos rapidamente do ponto de não-retorno.

À medida que as emissões de dióxido de carbono continuarem a aumentar, cenários distópicos serão cada vez mais frequentes, com largos territórios desertificados e a morrer. Se até a resistência milenar dos cedros falha, que hipótese temos nós, humanos, de sobreviver?

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