Os fogos vistos de longe

Não há fogos de esquerda e/ou de direita. Há fogos! Há tragédias! E estas, no caso português, se insistimos sempre em ter “culpados”, são responsabilidade de vários governos e partidos

A tragédia na Grécia e a dimensão territorial na Suécia recolocam a questão dos incêndios na sua exata medida: estamos perante fenómenos de intensidade crescente que, se podem ser catalisados por erros de política(s), sobretudo desafiam a proteção e a organização do território e impõem meios de combate adequados a uma escala cada vez maior.

No que à Europa diz respeito, Portugal deve participar no esforço comum, inclusive no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, que parece ir avançar finalmente de forma estruturada agora que o fenómeno não é mais uma bizarria dos países do Sul. E o governo português andou bem ao reagir de pronto na ajuda possível quer à Suécia (dois aviões) quer à Grécia (50 bombeiros), em ambos os casos procurando ir ao encontro das necessidades específicas.

Nada a dizer quanto à ação do Governo neste caso. A cooperação civil, como a militar, não pode ter apenas um sentido – e creio que há um salutar consenso nacional nesta matéria.

O que realmente incomoda são as manifestações pequeninas de uma parte da sociedade portuguesa, muito localizada nos aparelhos partidários e na comunicação social que eles instrumentalizam. Não refiro casos de estupidez individual, bem visíveis em algumas reações nas redes sociais, até de gente conhecida, porque isso é do foro da falta de estrutura intelectual ou cívica e está à vista. Cada um pode ler e tirar as respetivas conclusões.

Interessa-me, sobretudo, e a propósito do cenário presente colocar o foco nesse campeonato miserável da responsabilização que há anos se joga na política portuguesa. Como se torna fácil perceber agora, porque as tragédias se desenrolam suficientemente longe mas significativamente perto (e já não apenas na Califórnia, Austrália ou China), não há fogos de direita e/ou de esquerda. Há fogos! Há tragédias! E, como sempre, estas são o resultado de erros, que devem ser corrigidos, e de imprevistos, que devem ser depois considerados.

No caso dos fogos, concorrem fenómenos globais, climáticos (que nos remetem para a importância de participar, em todas as esferas, no combate às mudanças introduzidas pela atividade humana), ações criminosas, negócios vários e erros políticos e de gestão do território. Estes últimos são responsabilidade de sucessivos governos de vários partidos. Criaram muitas condições específicas, a começar no lastro combustível que se foi acumulando no território e na falta de meios de combate aos fogos. Nos últimos meses foram tomadas, finalmente, algumas boas medidas operacionais. Esperamos todos que sejam suficientes para evitar problemas de dimensão grave agora que as notícias apontam para a chegada de temperaturas a rondar os 40 graus.

Volto ao circo mediático apenas para dizer o seguinte a propósito da entrevista de um jornalista da SIC ao respetivo secretário de Estado sobre os custos da solidariedade nacional aos incêndios na Europa: todas as perguntas são legítimas (como legítima foi a resposta do governante naquele preciso momento). Quem não estiver de acordo pode sempre dar os parabéns à administração Trump por recentemente ter mandado deter um jornalista (Dan Hayman) por fazer perguntas “chatas” sobre o plano de saúde e sobre violência doméstica. Parece que temos por cá deputados moralistas, sobretudo ditos de esquerda, que aprovam isso.

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