Os riscos das tendências populistas na Europa

Devemos estar atentos ao populismo demagógico e não pensar que estamos imunes a este fenómeno por integrarmos a periferia do continente.

Um espectro ensombra a Europa nestes dias agitados que vivemos: o espectro de um populismo demagógico e inquietante que utiliza as emoções primárias desencadeadas pelos fluxos migratórios de refugiados, no quadro de um clima de insegurança provocado pela ocorrência de  diversos atentados terroristas. Dir-se-ia até que está em curso uma tentativa de fazer pulverizar a precária construção da integração europeia que emergiu das ruínas da Segunda Guerra Mundial.

É muito mais fácil destruir do que construir, como sabemos. Edificar sete décadas de paz, progresso e prosperidade num continente que, durante mais de um milénio, foi devastado pelos mais sangrentos conflitos bélicos, parecia há cem anos uma mera utopia. Tudo mudou graças à atitude visionária de estadistas como o britânico Winston Churchill, o alemão Konrad Adenauer, o italiano Alcide de Gasperi, o belga Paul-Henri Spaak, o luxemburguês Robert Schuman ou o francês Jean Monnet.

Os chamados pais fundadores da União Europeia, que foram capazes de pôr todas as divergências de lado para se concentrarem no essencial: conceber e concretizar um vasto espaço territorial vivendo em paz e procurando solidariamente integrar as diferentes economias nacionais, desde os tempos da pioneira Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (França, Itália Alemanha e Benelux) até à União Europeia dos nossos dias.

Este espaço foi sendo sucessivamente ampliado e congrega hoje, como se sabe, cerca de 500 milhões de europeus vivendo em 28 países. Mas está ameaçado pelo vírus nacionalista – que tanto sofrimento causou aos nossos antepassados –, agora potenciado por populismos de diversos cambiantes. Viu-se na semana passada, nas eleições legislativas italianas, em que as duas forças mais votadas foram o Movimento 5 Estrelas, abertamente populista, e a Liga, declaradamente nacionalista e xenófoba. Trata-se de forças políticas pós-ideológicas, ambas declaradamente eurofóbicas e que constroem a sua identidade pela negativa.

Sabendo que a Itália foi um dos seis países fundadores da atual União Europeia e é a terceira maior economia do espaço comunitário, este desfecho eleitoral deve preocupar-nos. Aliás, na linha do que já havia sucedido em setembro, nas legislativas germânicas, com a entrada da AfD (Alternativa para a Alemanha) no Parlamento federal em Berlim. Este movimento eurocético e xenófobo obteve 12,6% dos votos, tornando-se no terceiro maior grupo parlamentar representado no Bundestag.

Compete a toda a cidadania esclarecida combater esta erupção de populismos pela força da palavra e pela pedagogia do exemplo. Também nós, portugueses, devemos acompanhar com atenção este fenómeno, sem cairmos na tentação de imaginar que permanecemos imunes ao extremismo identitário do neonacionalismo populista pelo facto de integrarmos a periferia mais ocidental do continente. Porque este vírus, quando se propaga, pode contagiar todos sem exceção.

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