Poder: A guerra familiar que fez tremer o El Corte Inglés

As divergencias no seio da família Álvarez pela liderança da cadeia de supermercados são antigas. A luta e a discórdia entre as filhas adotivas e o sobrinho do fundador, Isidoro Álvarez, acentuaram-se ainda mais com a chega do xeque Hamad do Qatar à estrutura acionista da empresa.

Pela primeira vez em 80 anos de história, o grupo El Corte Inglés está a ser liderado por alguém que não tem qualquer ligação à família que fundou a empresa, em 1934. A luta fratricida pelo poder, que opôs dois ramos da família retalhista, levou ao afastamento do anterior presidente do cargo e veio afetar a imagem da empresa no mercado. Longe das disputas internas do El Corte Inglés, o xeque Hamad bin Hassim bin Jaber al Thani, antigo primeiro-ministro do Qatar, tornou-se o primeiro acionista estrangeiro da cadeia de supermercados. Visto como um dos “elementos desagregadores” da empresa, o ex-governante do Qatar prepara-se agora para assumir o controlo de 12,25% do capital, consolidando-se como o terceiro maior acionista daquela que é uma das maiores empresas familiares de Espanha.

A entrada do xeque Hamad bin Hassim bin Jaber al Thani no capital social do El Corte Inglés aconteceu em setembro de 2014, por intermédio de Dimas Gimeno Álvarez, que sucedeu ao histórico presidente Isidoro Álvarez. Foi ao milionário que Dimas Álvarez recorreu quando descobriu os graves problemas financeiros que o El Corte Inglés enfrentava na altura. Al Thani concede-lhe um empréstimo que ascendeu aos mil milhões de euros, tendo pedido em troca 10% de participação na retalhista espanhola. Dimas Álvarez concordou com a entrada do xeque no capital social da empresa e estabeleceram um prazo limite para que tal acontecesse: o dia 12 de julho de 2018. Apesar de Dimas Álvarez ter sido afastado do poder entretanto, al Thani veio reclamar o que lhe havia sido prometido.

No início desta semana, o xeque do Qatar assumiu o controlo de 12,25% do capital da empresa. Aos prometidos 10%, al Thani terá somado outros 2,25% provenientes de juros de empréstimos, que ascenderam a 225 milhões de euros. Caso o EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) não atinja o valor esperado, é possível que a participação do ex-governante do Qatar possa aumentar mais um ponto percentual. Há ainda um outro aspeto que pode fazer aumentar a quota de al Thani no El Corte Inglés, que é uma eventual entrada da empresa na bolsa de Madrid. Se o valor de mercado da retalhista for inferior a 10 mil milhões de euros, o investidor do Qatar tem direito a mais 1% da empresa. Certo é que, com os atuais 12,25%, al Thani tornou-se o terceiro maior acionista do El Corte Inglés. À frente ficam apenas a Fundação Ramón Areces (com mais de 37% do capital) e a Isidoro Álvarez SA (com mais de 22%).

Mas a venda de parte da empresa ao xeque al Thani não foi bem vista por toda a família Álvarez. As filhas adotivas do histórico presidente Isidoro Álvarez, Marta e Cristina Álvarez Guil, manifestaram-se contra a entrada do xeque no capital do El Corte Inglés, defendendo o carácter familiar da empresa. Ao mesmo tempo, opuseram-se a qualquer possibilidade de a empresa passar a ser cotada em bolsa. A oposição cerrada às intenções de Dimas Álvarez precipitou uma série de confrontos e arrastou o caso para a barra dos tribunais, inflamando as já tensas relações entre estes dois ramos da família.

Discórdias e ambição familiar

As divergências no seio da família Álvarez começaram a surgir logo após a morte do histórico presidente da empresa, Isidoro Álvarez, em setembro de 2014. Sem descendentes diretos, o então líder da empresa escolheu para seu sucessor o sobrinho Dimas Álvarez, que tinha vindo a formar desde os seus tempos de estudante. Como parte da sua preparação para a presidência, Dimas Álvarez passou por diferentes postos de trabalho no grupo. Estreou-se no negócio como vendedor na década de 1990, tendo observado de perto a forma como era desenvolvido todo o trabalho logístico e comercial do El Corte Inglés. Esse conhecimento prático serviu-lhe de mais-valia quando, em 2001, se juntou à equipa responsável pela abertura do primeiro centro da rede em Portugal. Daí até ser nomeado conselheiro do grupo, em 2010, foi um pequeno passo. Mas a aposta no sobrinho, desagradou às suas filhas adotivas, que se viram relegadas a cargos de menor peso na empresa.

Dois dias depois da morte de Isidoro Álvarez, Dimas Álvarez assumiu a liderança da retalhista espanhola. As primas Álvarez decidiram então furar caminho até ao poder por uma outra via: a estrutura acionista da empresa. Marta e Cristina Álvarez Guil lançaram-se à conquista de uma posição maioritária no grupo, que lhes valesse uma posição confortável no conselho de administração, capaz de travar as decisões do novo presidente e forçar a sua retirada. E o cavalo de Tróia escolhido foi a Fundação Ramón Areces, a maior acionista do grupo, que se tornaria também o rastilho das hostilidades entre a família Álvarez.

Foi preciso quase meio ano para que fosse anunciado o novo presidente da acionista do El Corte Inglés. Dimas Álvarez concorreu ao cargo, com o argumento de que, desde sempre, o presidente do El Corte Inglés foi também presidente da Fundação Ramón Areces. O conflito terminou com Florencio Lasaga a assumir a liderança da fundação e Marta e Cristina Álvarez a entrarem para o conselho de administração da entidade. Um golpe duro para Dimas Álvarez, que deixou clara a sua fraca posição no grupo.

Em fevereiro do ano passado, as irmãs Álvarez conseguiram ainda nomear para diretor-geral de retalho Víctor del Pozo, um dos seus homens de confiança. Esse foi o início do fim do reinado de Dimas Álvarez. O golpe final chegaria em outubro de 2017, quando foi aprovado por unanimidade pelo conselho de administração uma redução dos poderes do presidente do El Corte Inglés, passando parte das suas funções para a mão de dois outros membros da confiança das irmãs Álvarez – Jesús Nuño de la Rosa y Coloma e Víctor del Pozo Gil.

O golpe palaciano

Com a maioria das ações que lhe dariam realmente poder nas mãos das suas primas, Dimas Álvarez foi forçado a deixar o cargo em meados de junho. Dimas Álvarez mantém “funções executivas”, estando responsável pelos recursos humanos, departamento jurídico, operações e a gestão das lojas do grupo. A decisão do conselho de administração do El Corte Inglés de afastar Dimas Álvarez foi tomada por unanimidade pelos acionistas. A reunião durou apenas uma hora e na agenda constavam apenas três pontos: a aprovação da ata do conselho, a demissão do presidente e a nomeação de um substituto. Apenas o investidor árabe al Thani decidiu abster-se de tomar uma posição.

A liderança do grupo foi entregue a Nuño de la Rosa y Coloma, próximo das primas Álvarez. Dimas Álvarez garante que vai recorrer à justiça para impugnar o conselho que o destituiu, alegando que em causa estão questões pessoais. “Certamente vou ser demitido e será nomeado outro presidente, mas a empresa vai passar de uma situação má para outra infinitamente pior”, sublinhou após a reunião, na qual não esteve presente.

Este processo tem vindo a denegrir a imagem da empresa no mercado e em nada ajudou a dívida de 3.650 milhões de euros que a retalhista tem junto da banca e fornecedores. O El Corte Inglés é o maior grupo de retalho de Espanha, com cerca de 1.400 lojas em todo o mundo e 100 mil trabalhadores. O grupo contribui com 25 mil milhões de euros para a economia espanhola, o que corresponde a 2,4% do PIB do país vizinho por ano.

Ler mais
Relacionadas

El Corte Inglès ultrapassa 479 milhões de vendas em Portugal

O resultado líquido cresceu para os 24,6 milhões de euros, mais 6,6 milhões que no exercício anterior. O volume de negócios global do grupo espanhol ficou próximo dos 16 mil milhões de euros.

Dimas Gimeno vai ser destituído da presidência do El Corte Inglés

Luta entre a família que controla a totalidade do capital continua. A Assembleia Geral Extraordinária que se realiza na próxima semana poderá ajudar a clarificar o cenário nebuloso por que o grupo está a passar.
Recomendadas

Carocha: Afinal, o carro do povo não morreu

Ao fim de oito décadas, o veículo que atravessou diversos momentos históricos chegou ao fim de uma longa estrada. O Carocha foi um símbolo do renascimento económico da Alemanha do pós-guerra e foi um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Em Portugal, o espírito continua bem vivo: além de um hino, são vários os clubes e os colecionadores que guardam relgiosamente um modelo que pode valer mais de 100 mil euros.

Ângelo Girão: o comendador que mete medo aos avançados

Meses depois de ser campeão europeu de clubes pelo Sporting, realizou o sonho de tornar Portugal campeão mundial. O fim do jejum que durava desde 2003 deveu-se em grande parte ao guarda-redes de 29 anos que provou, uma vez mais, que não existe ninguém melhor a evitar que os sticks levem a bola para dentro da baliza. Os argentinos, espanhóis e italianos podem confirmá-lo.

Assembleia da República: Maioria absoluta masculina, acima dos 50 e recém-chegada

A XIII Legislatura, que está quase a terminar, não fica só marcada pela “geringonça”. Ao longo dos últimos quatro anos os portugueses foram representados por um Parlamento tão envelhecido quanto inexperiente no desempenho de funções. Aqui está a radiografia dos nossos deputados.
Comentários