Procrastinação ou a coragem de mudar

É preciso saber e decidir sem vacilar. Caso contrário, faremos parte das fotos guardadas no baú. Para mais tarde recordar.

Para mais tarde recordar. Certamente, as gerações mais recentes não se lembram deste claim, mas fica na memória das campanhas publicitárias, em português, da Kodak, na década de 80 do passado século. Este, que chegou a ser o gigante mundial da fotografia, nasceu em 1880, nos Estados Unidos, quando George Eastman concebeu o que veio a ser o papel fotográfico. Milhares foram os produtos que nasceram da criação da Kodak e que democratizaram o uso da fotografia. A Kodak, chegou a ultrapassar a barreira dos 100 mil trabalhadores no total das suas unidades fabris no mundo inteiro.

O que é menos conhecido do público em geral é que se deve a um engenheiro da Kodak, Steve Sasson, a primeira máquina fotográfica digital do mundo: pesava três quilos e meio, e tinha uma capacidade para captar imagem a 0,1 megapixel. O tradicional rolo fotográfico começava a ter a alternativa do armazenamento de imagem, ainda a preto e branco, em suporte magnético de cassete. A inovação da Kodak era, em simultâneo, o início da sua própria ameaça enquanto líder da fotografia que detinha a maior fatia das suas receitas numa tecnologia segura, consolidada: o rolo fotográfico.

Os gestores da Kodak apostavam num cenário de mercado global que iria demorar muito tempo a consolidar o desenvolvimento da imagem digital. Considerando que a qualidade aceitável para fotografia iria tardar muito a vingar, a Kodak decidiu canalizar os seus investimentos para o core da sua atividade, mantendo-se no negócio tradicional, com a convicção de que a transformação tecnológica iria ser lenta e não estaria isenta de riscos significativos que não estava disposta a correr.

A Kodak, que, entretanto, vem procurando reinventar o seu modelo de negócio, apresentou-se à insolvência em 2012. A Kodak era uma organização do século XX, com pensamento do século XX, e que considerava que as mudanças se dariam no tempo certo, ao seu ritmo, ao ritmo dos gestores do século XX. Hoje, em todo o mundo, tiramos mais fotografias com os nossos dispositivos móveis em dois minutos do que tirámos em todo o século XX.

O que hoje conhecemos da história da Kodak faz-me recordar a fábula da rã que não sabia que estava a ser cozida, do escritor suíço Olivier Clerc. Em traços gerais, um batráquio que vive em água fria, pela sua composição biológica, agradece poder viver em água mais quente. Comecemos por colocá-lo num recipiente de água fria, e depois aqueçamos a água. O que sucede?

A rã mantém-se imóvel porque recebe, com agrado, uma temperatura mais alta. Um aconchego quentinho, portanto. No entanto, perde a noção da fronteira de intolerância à água quente. E, quando chega ao ponto de cozedura, já não tem forças para saltar. Diferente seria se tentássemos colocar a rã em água a 50 graus. Saltaria por repulsão ao ambiente hostil. Mas, a procrastinação colhe-a fatalmente, quando a mudança das condições de ambiente se vão alterando de forma gradual.

Chamemos-lhe efeito “Kodak” ou efeito “rã que não sabia que estava a ser cozida”. Não acredito que as grandes organizações não tenham as necessárias competências para fazer diagnósticos adequados quanto à evolução do seu ambiente externo, e de formular o que devem fazer para desencadearem a transformação. Já sou mais cético quanto à sua capacidade de formularem estratégias que as tornem únicas no mercado, com um posicionamento diferenciador e com capacidade para gerarem valor a partir das suas escolhas inovadoras.

Não obstante, o primeiro passo é fundamental. É típico, nas organizações tradicionais, que a atitude face ao ambiente externo em mudança se desenrole em três fases: a primeira é a do ceticismo (não vai correr bem, demasiado arriscado, os consumidores não estão preparados, vai demorar); a segunda é a da lamentação (é lamentável como é possível por em causa a história e a experiência, é lamentável que entrem novos players no mercado sem o legacy dos que já cá estavam e sem preencherem “requisitos”); a terceira é a da urgência, do “ir a reboque porque tem de ser” (que já será o resultado da procrastinação, em que percebemos que o aquecimento não é sinónimo de aconchego).

Sem a coragem de não procrastinar, corremos o risco de não irmos a tempo de dar o salto necessário para perpetuar as nossas organizações. Para isso, é preciso saber e decidir sem vacilar. Caso contrário, faremos parte das fotos guardadas no baú. Para mais tarde recordar.

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