Quadrante Leste

Numa semana de calor, em que os ventos do quadrante leste aqueceram a atmosfera e as águas, creio que é tempo de lhes darmos a devida atenção. Sossegue o caro leitor que esta crónica não vai ser sobre o pouco habitual calor que se faz sentir. Os ventos de que vou falar surgiram de paragens […]

Numa semana de calor, em que os ventos do quadrante leste aqueceram a atmosfera e as águas, creio que é tempo de lhes darmos a devida atenção. Sossegue o caro leitor que esta crónica não vai ser sobre o pouco habitual calor que se faz sentir. Os ventos de que vou falar surgiram de paragens mais frias, mas que há 25 anos aqueciam os ânimos por esta Europa fora.

Ao ler o livro “A Política Externa Russa no Espaço Euro-Atlântico”, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra e coordenado por Patrícia Daehnhart e por Maria Raquel Freire, viajei de novo por esses tempos promissores que hoje parecem distantes de uma Europa à procura de si mesma. O livro assume um caráter bastante pedagógico, refletindo sobre essa história europeia recente e dando um enfoque pouco comum entre a bibliografia portuguesa, partindo de uma perspetiva que centraliza a ação na Rússia. É, ainda, de assinalar o facto de ser fruto do pensamento de académicos portugueses.

A caminho de festejar os 25 anos da democratização do Leste europeu, sabemos que muitos países recuperaram ou inauguraram processos democráticos, uns mais que outros, e que as economias se abriram ao mercado. No entanto, as promessas de uma Europa mais equilibrada não se concretizaram. Pelo contrário, a ameaça tornou-se menos previsível (para um e outro lado) e surgiram atores até então silenciados. A Europa tornou-se paulatinamente menos segura e as sucessivas guerras dos Balcãs davam fundamento ao que ao início eram apenas suspeitas. Rapidamente, caminhámos para uma Europa plena de interesses nacionais, em que a integração europeia foi abrandando ao toque das exigências dos mercados financeiros e ao despertar das dívidas públicas. A ideia de bem comum europeu e de uma cidadania europeia foi cedendo lugar aos temores das dívidas, das dependências, das migrações e das mobilidades.

Curiosamente, a União Europeia alargou-se a Leste exatamente com o pretexto de mais democracia, mais liberdade, mais mobilidade, mais justiça e mais mercado. Portanto, de uma Europa mais integrada e mais pacífica. Mas a conquista dessa Europa mais promissora para os europeus também envolvia alguns passos comuns, incluindo perspetivas de política externa consensuais entre os seus estados-membros. Apesar disso, cada Estado europeu tem a sua política externa e internacionalmente, a União Europeia não apresenta qualquer força negocial.

Uma boa prova disso é o testemunho deixado por Zbigniew Brzezinki, no seu livro “Os Estados Unidos e a Crise do Poder Mundial”, editado este ano pela Gradiva e que, ainda sem poder prever na totalidade os conflitos que estão a ser vividos presentemente, alerta para a fluidez que o poder agora apresenta. Aqui, o autor faz diversas referências não só à falta de coesão da Europa como à ausência de poder efetivo no quadro de ação global. Aponta, ainda, a volatilidade geopolítica do que denomina (com outros o fizeram) a Eurásia.

A questão permanece: será preciso os ventos do quadrante leste incendiarem toda a Europa para se perceber que certo tipo de política se esgotou logo ao início? É que projetos incompletos são sempre piores que uma ausência de projeto. Parece que a União Europeia está agora numa encruzilhada.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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