Respostas Rápidas: porque é que a turbulência em Itália está a abalar os mercados?

O impasse político em Itália prolonga-se e fez soar os alarmes nos mercados. A ‘yield’ da dívida soberana do país dispara e contagia as pares da periferia da zona euro, incluindo a portuguesa. As bolsas tombam e em Lisboa o BCP é o ativo mais pressionado.

Stringer/Reuters

O que está na base da crise política em Itália?

As eleições de 3 março não ofereceram um resultado conclusivo e, após quase três meses de impasse, na semana passada o presidente Sergio Mattarella indigitou Giuseppe Conte, um advogado sem experiência política para formar um Governo de coligação do Movimento Cinco Estrelas e a Liga, um partido de extrema-direita.

O problema é que para cargo de ministro da Economia, Conte apresentou Paolo Savona, um economista que é contra o euro e a União Europeia, o que levou a algum nervosismo nos mercados na semana passada. Este fim de semana, no entanto, Mattarella rejeitou a nomeação de Savono e a tentativa de formação de governo caiu por terra.

Quais são os próximos passos?

O presidente convidou esta segunda-feira o economista Carlo Cottarelli para formar um governo e apresentar ao Parlamento um programa que leve o país a novas eleições.

“Cottarelli explicou que as eleições seriam depois de agosto caso o seu governo perdesse o voto de confiança do Parlamento ou no início de 2019 caso consiga o apoio das câmaras. Uma vez que é pouco provável que o governo de tecnocratas de Cottarelli consiga este apoio, o cenário de eleições no outono de 2018 é o mais provável”, explicou a equipa de research do Bankinter, numa nota.

“O veto de Mattarella a Paolo Savona adiou o risco do populismo, que deverá voltar a aparecer nas novas eleições. A permanência na UEM estará no centro das companhas nas próximas eleições, abrindo um extenso período de incerteza”, acrescentou o Bankinter.

No entanto, a política italiana não é a única a preocupar os investidores, com os analistas apontarem também para Espanha, onde o governo de Mariano Rajoy enfrenta uma moção de censura apresentada pelos socialistas e que será votada esta sexta-feira.

Qual está a ser o principal impacto nos mercados italianos?

O governador do banco central de Itália alertou esta terça-feira que o país esta “apenas a alguns passos curtos de perder a confiança dos investidores”. As movimentações nos mercados esta terça-feira explicam as palavras de Ignazio Visco, com uma forte penalização dos ativos italianos.

O FTSE MIB, o principal índice da bolsa de Milão, perde 2% na sessão e já acumula um trambolhão de 10,23% este mês. A taxa das obrigações italianas a 10 anos dispara 28 pontos para 2,96%, tendo já tocado nos 3,44%, máximos de quatro anos.

E no resto da Europa?

Com alguns analistas a mencionaram a possibilidade de um Italexit – uma eventual saída da Itália do euro – o nervosismo dos investidores está a castigar também as restantes praças europeias, a moeda única e as obrigações das economias mais vulneráveis do bloco.

“Nesta turbulência política, o euro continua a derreter face ao dólar”, sublinha Carla Santos, senior account manager da XTB. A moeda europeia cai 0,42% para 1,1577 dólares, tendo descido para abaixo do patamar dos 1,16 dólares pela primeira vez desde novembro de 2017.

As dívidas soberanas dos outros países da periferia do euro estão também a ser penalizadas: em Espanha, os juros da dívida benchmark ganham 9,70 pontos base para 1,622%, enquanto na Grécia, a yield agrava 43,80 pontos para 4,925%.

Nas bolsas, o índice pan-europeu Stoxx 50 cai 1,37% para 3.438,45 pontos enquanto o índice espanhol IBEX 35 afunda 2,29%. O francês CAC 40 perde 1,06%, o alemão DAX recua 1,14%, o holandês AEX resvala 0,74% e o britânico FTSE 100 cai 1,20%.

A banca está a ser especialmente castigada. Porquê?

A banca italiana, que tem sofrido diversos problemas nos últimos anos devido ao elevado fardo do crédito mal parado, está a ser penalizada porque detém uma proporção grande da dívida soberana do país e cujo valor está a cair a pique. Segundo dados do Banco Central Europeu, os bancos italianos tinham em mãos cerca de 404 mil milhões de euros em dívida soberana do próprio país no final de abril, um valor que representa pouco mais de 10% dos ativos totais do setor.

O índice setorial da banca italiana está a cair 4% e já regista uma desvalorização de 21% no último mês. A negociação das ações de dois dos maiores bancos italianos – o Intesa Sanpaolo e o Unicredit – estiveram suspensas após quedas de mais de 5%.

O Stoxx Europe Banks 600, índice pan-europeu da banca, perde 2,75%, com vários bancos espanhóis também em destaque pela negativa, com o Sabadell, o Bankia e o Santander a perderem perto de 5%.

Como é que a situação está a afetar os ativos portugueses?

Em Portugal, são duas as principais vítima da turbulência nos mercados esta terça-feira. A taxa da dívida soberana a 10 anos sobe 13 pontos base para 2,20%, tendo já tocado em máximos de nove meses nos 2,50%.

O outro ativo sob forte pressão é o BCP, cujas ações tombam 7% para 0,2421 euros.  “Todo o setor financeiro na Europa está a ser afetado pelos eventos em Itália, e o BCP é vulnerável a isso, sem dúvida”, explicou Gualter Pacheco, trader da GoBulling.

O sentimento negativo em geral na Europa e o peso do BCP estão a castigar o PSI 20, que perde 2,29%.

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