Rui Rio, Sá Carneiro e as lições da História

Ainda não são do domínio público as motivações que presidiram a algumas escolhas de Rio para a Comissão Política. Inegável é que o tempo não descansa. Por isso, a sua liderança não tardará a ser avaliada pelos portugueses.

O líder não saboreou a tradicional acalmia pós-eleição. Não teve direito a estado de graça. As críticas, as sombras e os apupos, ainda que indiretos, não esperaram pelo fim do Congresso. Culpas repartidas entre a obstinação própria e a idiossincrasia do partido.

Será caso para dizer que numa semana Rui Rio reviveu situações ocorridas durante a liderança de Sá Carneiro. Talvez a intervenção no Congresso que o elegeu como Presidente tenha sido premonitória. Trouxe à memória as palavras do agora idolatrado líder quando falou da necessidade de estabelecer acordos de regime entre “partidos que formem uma maioria democrática”.

Um apelo lançado por Sá Carneiro em 1976 e que tinha como destinatário preferencial o Partido Socialista. Apelo teimosamente repetido e ignorado.

Também a revolta dos deputados na eleição de Fernando Negrão como novo líder parlamentar fez recordar que, em 2 de junho de 1978, mais de metade dos deputados do PPD – 42 em 73 – subscreveram um documento – “PSD: opções inadiáveis” – a criticar a estratégia de Sá Carneiro. Isto já depois de ter sido obrigado a demitir-se da liderança em 1977 e ter voltado ao cargo em 1978.

Uma crítica assumida por algumas figuras que, na conjuntura atual, não poupam nos encómios ao fundador.

Ainda não são do domínio público as motivações que presidiram a algumas escolhas de Rio para a Comissão Política. Inegável é que o tempo não descansa. Por isso, a liderança de Rui Rio não tardará a ser avaliada pelos portugueses. Pelos eleitores e não apenas internamente pelos congressistas ou deputados.

Rio sabe que não tem direito ao slogan passista: “Que se lixem as eleições”. A conjuntura é outra. O PSD, apesar de ter o maior número de deputados, está na oposição. A geringonça, malgrado algumas desarticulações, vai chegar à meta. Os esforços exigidos pelo governo de Passos Coelho serviram de alavanca. A recuperação económica permitiu reabastecer o depósito. A direção está algo desalinhada, mas as pressões do BE e da CDU não implicam guinadas significativas. Da Europa, ao contrário de África, vão soprando bons ventos.

Rio sabe que não dispõe dos cerca de três anos de Sá Carneiro para, enquanto vai solucionando conflitos internos, constatar que o PS de Costa não mudou de estratégia relativamente ao de Soares no que concerne ao Poder. A essência permanece. O sorriso ou a afabilidade como manto. À boa maneira queirosiana. Acordos só sobre aquilo que é inevitável e não coloca em causa – bem pelo contrário – a manutenção no Poder. Como a questão dos fundos comunitários.

Sá Carneiro, quando se cansou de esperar por Godot, perdão, Soares, virou-se para outros parceiros e venceu as legislativas com maioria absoluta. Camarate impediu-o de concretizar por inteiro o projeto. Ficaram as dúvidas sobre a nova forma de fazer política. Algo que Rio também pretende. Só que não está no Poder e, se o discurso não for mobilizador, não virá a estar.

Acordos, acordos, eleições à parte!

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