Sérgio Conceição: O novo herói do ‘Dragão’

O que significa o FC Porto para Sérgio Conceição? “Vou contar uma história de quando tinha 16 anos. Depois de meses difíceis a tentar convencer o meu pai, consegui vir jogar para os juniores do FC Porto. Um dia depois de assinar o contrato tive a pior notícia da minha vida,que foi a perda dele”.

A 5 de maio, quando o árbitro Carlos Xistra deu o apito final no jogo entre Sporting Clube Portugal e Sport Lisboa e Benfica, que acabou empatado no Estádio de Alvalade, o Futebol Clube do Porto sagrou-se campeão da Primeira Liga. Na penúltima jornada da competição, os rivais Sporting e Benfica entregaram de mão beijada o 28.º título dos azuis e brancos.

Ao fim de quatro anos de absoluto jejum, o FC Porto voltou a levantar o título de campeão nacional e o mérito da conquista é atribuído, unanimemente, ao timoneiro Sérgio Conceição.

Aos 43 anos, Sérgio Conceição conseguiu o que nenhum dos seis anteriores treinadores, que passaram pela equipa principal do FC Porto nos últimos quatro anos, conseguiu: criar um coletivo em torno de uma ideia de jogo, definir um projeto desportivo que respondesse aos anseios dos adeptos e vencer a Primeira Liga.

Acresce ainda que o novo herói dos ‘dragões’ venceu o campeonato com jogadores sem hábitos de vitórias, pelo menos em Portugal, e numa competição ensombrada por sucessivas polémicas extrafutebol.

“Vou contar uma história de quando tinha 16 anos. Depois de meses difíceis a tentar convencer o meu pai, consegui vir jogar para os juniores do FC Porto. Um dia depois de assinar o contrato tive a pior notícia da minha vida, que foi a perda dele”.

O pai do treinador da equipa azul e branca morreu num acidente de moto. Pouco tempo de pois, morreu-lhe a mãe. A sorte de Sérgio Conceição foi madrasta em tenra idade. A volta por cima foi dada com total foco no futebol.

Quando Sérgio Conceição fez aquela afirmação, durante a sua apresentação oficial como treinador dos ‘dragões’, em junho de 2017, o novo campeão nacional não só partilhou uma parte da sua vida como revelou o significado do clube na sua história. E quando afirmou, então, estar “convencido” de que chegaria a maio “feliz, a festejar títulos com os adeptos”, Sérgio Conceição demonstrou o que já lhe era reconhecido nos tempos de jogador: competitividade e espírito de compromisso.

“Sou um ex-atleta de raça e ambição, e são essas características que vou utilizar”, garantiu na altura.

Contudo, tornar-se no terceiro a vencer o campeonato pelos azuis e brancos como jogador (1996/1997; 1997/1998; 2003/2004) e treinador, igualando o mítico José Maria Pedroto e António Oliveira, exigiu superar alguns desafios.

O primeiro foi construir um plantel competitiva com um FC Porto incapaz de realizar contratações pelas regras da UEFA, dada a infração ao fair-play financeiro. O treinador dos ‘dragões’ teve que recuperar jogadores afastados da equipa na época transacta, como Vincent Aboubakar, Moussa Marega e Sérgio Oliveira. O primeiro só não saiu do clube por causa de Conceição; Marega nem era titular no começo da época, mas os 22 golos que já conta na liga são reveladores da influência do avançado franco-maliano; e Sérgio Oliveira, que Conceição treinara no Nantes, em França, passou de dispensável a  um resoluto faz-tudo no meio campo dos portistas. O jovem lateral-direito Ricardo Pereira, que vinha de dois anos de cedência aos franceses do Nice e o guarda-redes espanhol Iker Casillas também são destaques.

O guarda-redes espanhol Casillas, um sábio do balneário azul e branco, é caso paradigmático do FC Porto de Sérgio Conceição. A meio da época foi afastado da titularidade, dando lugar a José Sá. O técnico portista diria que não estava agradado com o empenho da lenda viva do Real Madrid. Mais tarde, quando foi necessário, Casillas voltou como se nada tivesse acontecido.

Sérgio Conceição conseguiu criar um coletivo sem heróis ou vilões, onde todos são protagonistas.

Com essa equipa chegou aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, garantindo um encaixe financeiro considerável para o clube liderado por Pinto da Costa há mais de 35 anos. Só ficou fora da Taça de Portugal após ter sido eliminado pelo Sporting CP, nas meias-finais  – igual sorte na Taça da Liga.

Quanto ao plantel, a gestão de Sérgio Conceição foi a valorização em quase 50 milhões de euros dos 25 atletas agora campeões nacionais. Dados do portal Transfermarkt, revelam que entre o início e este final de temporada, o valor do plantel evoluiu de 174,05 milhões de euros para 221,5 milhões.

Outro desafio foi colocar o foco dentro das quatro linhas, mesmo quando chegava aos jornalistas a informação, no começo de época,  de que Conceição tinha sido uma segunda escolha para render Nuno Espírito Santo. E perante situações extrafutebol, como o “caso dos e-mails” e “caso e-Toupeira”, os excessos da comunicação entre clubes rivais ou a desconfiança sobre arbitragens e outros futebolistas, o técnico azul e branco terá conseguido distanciar o plantel de perturbações extemporâneas.

O calibre do treinador e a sua liderança são notados na capacidade deste remeter ao plantel só o que importa, os 90 minutos de jogo. O modo como Sérgio Conceição terá exercido autoridade, moderado ímpetos e controlado momentos de alta tensão terá convencido clube e adeptos. O resultado está à vista, embora Conceição não indevidualize o sucesso.

“O treinador não sou só eu. Somos mais de cinco elementos na equipa técnica. Há toda a estrutura que está de parabéns. Uma palavra para o presidente que me deu a oportunidade de trabalhar num clube que me diz muito. Na minha apresentação, tinha dito que no fim da época iria agradecer a duas pessoas: aos meus pais. Para eles, este título”, disse o treinador dos azuis e brancos num primeiro momento de festejos do título, à porta do hotel Solverde, em Vila Nova de Gaia.

Natural de Coimbra, pai de quatro rapazes, Sérgio Conceição é novo nas lides do treino.

Iniciou-se em 2011 no Olhanense e até regressar à Invicta passou pela Académica de Coimbra, Sporting de Braga, Vitória de Guimarães e Nantes.

Para trás ficou uma lograda carreira de futebolista ao mais alto nível. Passou pelos italianos da Lázio, Parma e Inter de Milão, além de FC Porto. Como jogador passou ainda pelos gregos do PAOK e pelos belgas do Standard de Liège e teve ainda uma experiência no Al Qadisiya, do Kuweit. Em Itália conquistou campeonato, taça e supertaça, além de um Supertaça Europeia e a extinta Taça das Taças da UEFA. No FC Porto, só não ergue a ‘Champions’ com José Mourinho por não ter sido inscrito na competição.

Por Portugal, vestiu a camisola da seleção nacional em 56 ocasiões, tendo apontado 12 golos. Com a equipa das quinas, participou no Campeonato da Europa de 2000 e no Campeonato do Mundo de 2002.

Com mais um ano de contrato à frente dos ‘dragões’, conta agora no currículo com o seu primeiro título enquanto treinador principal de futebol.

Ler mais
Recomendadas

Como a Indústria 4.0 pode ajudar a criar a fábrica do futuro

A fábrica do futuro é o centro de uma cadeia de distribuição que combina clientes, fornecedores, distribuidores e parceiros com sistemas analíticos avançados. Isso pode levar a uma “produção perfeita” com o mínimo de tempo de inatividade, negligência, desperdício e ineficiência.

Sustentabilidade no investimento: menos risco, mais valor

Reduzir a quantidade de plásticos descartáveis ou viajar de comboio são duas formas de reduzir a nossa pegada ecológica. E no investimento, o que podemos fazer para reforçar a sustentabilidade?
Comentários