Sinais de alerta devem fazer-nos corrigir a rota

A tão proclamada paz social como alegada conquista desta legislatura tem vindo a ser quebrada todos os dias, sobretudo ao nível da administração pública.

Parece-nos hoje ser absolutamente inquestionável: Portugal não soube aproveitar estes anos de relativa bonança na frente económica para prevenir riscos futuros. Tivemos praticamente tudo a nosso favor: baixas taxas de juro a níveis históricos, petróleo a preços muito reduzidos, um mercado turístico apostado em Portugal como alternativa à instabilidade vivida nos mais diversos cenários da frente mediterrânica e uma política de incentivos do Banco Central Europeu, que foi generosamente adquirindo parcelas importantes de dívida pública para evitar sobressaltos e desequilíbrios numa Europa abalada pelo Brexit e ameaçada pelas tensões populistas.

Podemos porventura afirmar que temos vindo a navegar de vento em popa, mas, segundo sinais consistentes recentemente manifestados, avizinham-se tempos muito menos afortunados para economias débeis e periféricas, cheias de deficiências estruturais, como é a nossa. O alerta foi dado esta semana, em termos inequívocos, pelo Conselho das Finanças Públicas. No seu mais recente relatório, este organismo adverte para o risco de uma recessão em Portugal, que pode custar o equivalente a uma queda de 3,1% do PIB e cinco anos de lenta e penosa recuperação.

Os sinais de perigo mantêm-se bem evidentes – desde logo, Portugal continua a ser um dos países mais endividados da área do euro, com um crescimento débil, uma elevada componente rígida (75%) na despesa primária e uma forte dependência externa para o financiamento da economia. Por outro lado, o crescimento do emprego que tem vindo a ser registado apenas acentua o carácter precário de grande parte do nosso mercado de trabalho: um em cada quatro empregos é remunerado ao nível do salário mínimo.

Enfim, a tão proclamada paz social como alegada conquista desta legislatura tem vindo a ser quebrada todos os dias, sobretudo ao nível da administração pública, confrontada com greves, protestos e cativações – austeridade disfarçada com outro nome – que perturbam áreas vitais da coesão social, com destaque para a saúde.

Também o FMI, no seu mais recente relatório, lança uma séria advertência: Portugal não soube aproveitar o ciclo económico favorável para assegurar a indispensável consolidação orçamental capaz de proporcionar uma folga para enfrentar tempos difíceis. Saiba o Governo interpretar estes sinais. E corrigir quanto antes a rota que tem vindo a ser trilhada.

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