‘Take it or Brexit’

Com Benedict Cumberbatch no papel de diretor da campanha Leave, está a ser rodado um filme que retrata o drama do referendo de 2016 que resultou no Brexit. Se tivéssemos de planear uma sequela baseada nos eventos das últimas semanas, o enredo seria de novo dramático, mas também teria um toque tragicómico.

A cena central teria de ser filmada em Chequers, a casa de campo dos primeiros-ministros do Reino Unido, onde a 6 de julho a atual chefe de Governo, Theresa May, reuniu o fragmentado elenco ministerial para uma longa ronda de negociações. A reunião foi digna de um episódio da série “House of Cards”, na encarnação original e britânica dos anos 90, com May alegadamente a obrigar os ministros a deixarem os assessores e os telemóveis à porta.

A estratégia resultou, no imediato, e a primeira-ministra pôde anunciar uma nova visão para as negociações com os (ainda) parceiros europeus sobre os termos do divórcio. É uma visão mais soft, que procura a criação de uma zona de comércio livre de bens. Adicionalmente, apesar de o Reino Unido se tornar numa jurisdição distinta após o Brexit, em relação aos bens teria de obedecer às decisões do Tribunal Europeu de Justiça na interpretação das regras do comércio de bens.

As consequências, no entanto, não foram tão lineares como May esperaria. O polémico Boris Johnson, secretário dos Negócios Estrangeiros, e David Davis, principal negociador para o Brexit, demitiram-se nos dias seguintes à reunião em Chequers. As saídas sublinharam a profunda divisão que existe entre os Conservadores. A posição de May à frente do partido não estará em risco, porque ninguém parece invejar a difícil tarefa que tem pela frente, pelo menos por enquanto.

No entanto, ao alterar a estratégia, May corre o risco de ter pela frente uma tarefa ainda mais árdua. O slogan Brexit means Brexit, usado desde 2016 para defender uma saída hard da União Europeia, deixou de fazer sentido. Isso significa que além de alienar uma parte do partido, os chamados Brexiters, a posição do Reino Unido tornou-se mais difícil de interpretar. Há várias áreas que são pouco claras, por exemplo a questão dos serviços, que representam 80% da economia britânica e sobre a qual May não deu uma resposta clara. Outro tema importante no qual a posição é ambígua é o da imigração. O Reino Unido não quer manter a livre circulação de pessoas, mas quer criar um “quadro de mobilidade” para turistas, estudantes e trabalhadores que replicaria uma grande parte da relação atual.

O problema para May é que, embora alguns aspetos da nova posição até tenham sido bem recebidos por Bruxelas inicialmente, o negociador europeu Michel Barnier já veio ontem dizer que as novas propostas são impraticáveis, inexequíveis e inegociáveis. Segundo Barnier, essas propostas vão contra as regras do mercado único, nomeadamente a indivisibilidade das quatro liberdades – de circulação, pessoas, bens, serviços e capitais.

O ex-primeiro-ministro Tony Blair veio pôr o dedo na ferida, dizendo esta semana que May é mais refém do que líder e que as negociações parecem estar a caminho de um impasse. Para Blair é impensável a UE aceitar os termos de May, porque isso poria em causa a própria integridade do bloco e levaria Bruxelas a decidir que não quer nem um acordo soft, nem um acordo hard, simplesmente um não-acordo, que teria consequências graves para todos, e especialmente para a economia britânica.

May corre o risco de ouvir Bruxelas dizer-lhe o inverso do título da fabulosa sátira política da BBC dos anos 80: “No, Prime Minister”.

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