Todos os dias vivemos momentos de “singularidade”

É a primeira vez na história da humanidade que estamos confrontados com uma tecnologia que se destina não a substituir uma outra mas sim a substituir-nos a nós próprios.

O debate em redor da Inteligência Artificial, e da sua inexorável marcha, gira à volta de um conceito simples: a singularidade. Mas o que é, afinal, a “singularidade”? Dito de forma simples a singularidade é o momento em que a convergência de desenvolvimentos de Inteligência Artificial (IA) resultará na criação de uma “superinteligência artificial” que desencadeará um crescimento tecnológico exponencial, não controlado por humanos. Os céticos acreditam que esse crescimento se sobreporá à vontade das pessoas, criando uma realidade que servirá apenas a própria tecnologia, sem qualquer preocupação ou respeito pela nossa própria existência.

Feliz ou infelizmente, a IA não caminha só, não tem existência própria e, até ver, continua firmemente sob o controlo de pessoas… mas – e este é um grande mas – todos os dias um determinado domínio da IA ultrapassa a capacidade humana de entendimento, raciocínio e apreensão de determinados campos da realidade. Já sabemos que programas baseados em IA são superiores a nós a jogar xadrez, por exemplo. Ou a jogar Go, um jogo chinês com mais combinações possíveis que o próprio xadrez. Nestas duas matérias, fomos já ultrapassados e nunca mais seremos capazes de recuperar a nossa supremacia.

À hora a que escrevo estas linhas, um programa de IA mostrou-se infinitamente mais capaz que o melhor dos oncologistas em diagnosticar melanoma com exatidão. Dentro em breve, programas semelhantes ultrapassarão especialistas em todas as áreas de diagnóstico médico. Nestes exemplos e para cada um deles, a IA atingiu já momentos de “singularidade”. Nunca mais um oncologista será melhor que uma máquina a diagnosticar melanoma. Portanto, a cada dia que passa, cedemos o controlo de uma parte crescente das nossas vidas, sem sequer nos darmos conta que o fazemos.

Portanto, enquanto nos entretemos a ver o robótico Mark Zuckerberg a pedir desculpa pela enésima vez sobre os disparates abusivos e invasivos da república estudantil bilionária a que preside, ou a ver como os criadores do Google fundam empresas cujo objetivo é “vencer a morte”, a IA, a verdadeira, a que é feita de múltiplas pequenas realidades em que pouco a pouco vamos perdendo prevalência, continua o seu imparável movimento a caminho do domínio sobre cada pequena parcela das nossas vidas.

É sabido que o progresso tem uma dinâmica própria que lhe confere uma inércia imparável. As lâmpadas substituíram as velas, os automóveis os cavalos, os telemóveis os telefones. Parar o progresso não é possível nem desejável. Mas é a primeira vez na história da humanidade que estamos confrontados com uma tecnologia que se destina não a substituir uma outra mas sim a substituir-nos a nós próprios, sobretudo nas áreas mais sofisticadas do conhecimento e da tomada de decisão. E é essa particular “singularidade” que devemos temer. E é para ela que nos devemos preparar pois, inevitavelmente, ela vai chegar.

Esta semana discutimos a eutanásia. Ora, um dia, confiaremos à Inteligência Artificial decisões de vida ou de morte, como essa. E não teremos capacidade de a contrariar pois saberemos que nenhum homem poderá decidir tão corretamente quanto uma máquina em tão complexa matéria. Sobretudo porque o fará despida de qualquer emoção, de forma objetiva, inquestionável. E, nesse momento, saberemos que nunca mais recuperaremos o controlo.

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