Trump e Putin finalmente juntos e a sós

É a primeira vez que se reúnem sem ser ‘por acaso’ e têm em mãos dossiês de importância crucial em relação aos quais sistematicamente estão em posições opostas. Por um dia, o mundo estará suspenso pelos relógios finlandeses.

Donald Trump e Vladimir Putin, presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, mantêm um envolvimento que é difícil de adjetivar e que está completamento fora dos cânones que costumam balizar as relações dos que ocupam aqueles lugares cimeiros da cena internacional. Nem mesmo durante a Guerra Fria as relações entre os ocupantes da Casa Branca e do Kremlin foram alguma vez tão misteriosas e, de algum modo, tão complexas.

É por isso que a reunião que esta segunda-feira ocorrerá em Helsínquia, na Finlândia, entre Trump e Putin está envolta numa nuvem espessa que é difícil de penetrar. Desde logo pelo timing: Trump acaba de estar numa cimeira da NATO (que, apesar do fim da Guerra Fria, continua a ter na Rússia e nas suas tentações expansionistas (Geórgia, Ucrânia, Moldávia e Crimeia) a sua preocupação mais central) e de passar dois dias no Reino Unido (pais que mantém um desentendimento que já vai sendo longo com a Rússia, a propósito do envenenamento de um espião russo em território britânico).

Mas é a presença constante do dossiê ‘Rússia’ na vida quotidiana da política interna norte-americana que torna o encontro ainda mais nebuloso: a Rússia é acuada de se ter intrometido nas eleições em que Trump foi eleito presidente e o inquilino da Casa Branca é acusado (ele ou membros da sua família) de manter contactos com misteriosas personalidades russas, que nunca ninguém verdadeiramente entendeu mas que resultou na demissão de vários altos funcionários norte-americanos, nomeadamente ao nível da direção do FBI.

Questionado no final da Cimeira da NATO sobre como observava o presidente russo (como amigo ou inimigo), Trump respondeu: “como concorrente”. E, para os analistas, essa parece ser a resposta mais sensata, mesmo que possa parecer desconcertante: são dois líderes de dois países que não escondem que querem ter uma palavra a dizer em todos os palcos do planeta.

Mesmo que esses palcos os dividam – como são os casos mais óbvios da Síria (a Rússia apoia o regime de Bashar al-Assad e os Estados Unidos opõem-se à sua permanência à frente do país) e do Irão (que faz parte da lista de amigos do Kremlin e da lista dos inimigos da Casa Branca).

De qualquer modo, esta será a primeira vez que os dois terão um encontro particular e demorado, pelo que a expectativa é muita. A Finlândia foi escolhida para acolher o encontro pela sua neutralidade política – a exemplo do que aconteceu com Singapura na reunião de Trump com Kim Jong-Un, líder da Coreia do Norte – apesar de o país feito parte do império russo entre 1809 e 1917.

Segundo as agências internacionais, o Kremlin informou que os dois líderes irão conceder uma entrevista coletiva depois do encontro, mas não divulgarão necessariamente um documento conjunto. “Uma declaração comum não é atributo obrigatório de tais reuniões”, afirmou o porta-voz, Dmitri Peskov, na sexta-feira passada, citado por vários jornais.

Apesar do clima de aparente cordialidade que Trump faz questão de demonstrar em relação a Putin, a quem costuma elogiar com frequência, a agenda entre os dois países está cheia de ‘pontos negros’ e dossiês difíceis: para além dos já referidos, a questão das armas nucleares está em aberto: o assessor para Assuntos Internacionais de Putin, Yuri Ushakov, afirmou que “a Rússia está há muitos anos a querer dialogar sobre a saída dos Estados Unidos do tratado dos mísseis antibalísticos”, fazendo referência à decisão do então presidente George W. Bush, em 2002, de deixar o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start II).

Temas suficientes para muitas horas de discussão, que estão a manter o mundo suspenso pelo que se vai passar em Helsínquia.

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