Um herói improvável

A História da Europa e do Ocidente ganhou um novo símbolo, que, na luta contra o terrorismo islâmico, ofereceu o que de mais precioso e mais valioso possuía, a sua própria vida, para salvar a vida de um refém.

Desde que, a partir de 11 de setembro de 2001, o islamismo radical declarou guerra ao Ocidente, com o mais violento ataque promovido em solo norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial, tendo por alvo o centro nevrálgico da economia mais representativa desse mesmo Ocidente, os ataques ao que resta desse Ocidente em processo de recuo têm-se multiplicado e sucedido nas mais diversas latitudes, protagonizados pelos mais diversos grupos radicais islâmicos. Os territórios europeu e norte-americano têm sido, nesse domínio, os alvos preferenciais dessas ações terroristas e assassinas em que o nome de um qualquer Deus tem sido o pretexto para semear a morte, o terror e a destruição.

Perante essa cruzada antiocidental, esse mesmo Ocidente debilitado e enfraquecido – de que a civilização europeia constitui um dos seus mais relevantes pilares estruturantes – tem dado inúmeras e incontáveis provas de desnorte, de falta de reação concertada, de divisão, às vezes, mesmo, de tergiversação e de cobardia, não faltando quem, de onde em onde, chegue ao ponto de sugerir ou alvitrar que o caminho possível a trilhar deverá ser o da própria negociação com os terroristas e os assassinos. No meio desta desorientação geral, quase sempre não faltam as proclamações condenatórias provenientes das mais diversas entidades; porém, apenas proclamações; apenas palavras.

Na passada semana, contudo, algo de substancial mudou. E num misto de perplexidade e de estupefação, o mundo inteiro tomou conhecimento que, em França, no decurso de mais uma ação terrorista perpetrada por Redouane Lakdim, radical islâmico que desencadeava em nome do Daesh um ataque a um supermercado exigindo a libertação de Salah Abdeslam, o principal suspeito vivo dos atentados de 13 de novembro de 2015, em Paris, no qual morreram 130 pessoas, um tenente-coronel da gendarmerie francesa – Arnaud Beltrame, de seu nome – ofereceu-se para ocupar o lugar de um refém capturado pelo assassino terrorista e, garantindo a salvação do refém, sacrificou e perdeu a sua própria vida.

Arnaud Beltrame, veio a saber-se depois, tinha sido um destacado elemento das forças policiais francesas, responsável pela segurança do palácio do Eliseu, sendo um fervoroso e empenhado católico que, no dizer dos seus próximos, vivia a sua vida nessa completa coerência entre a sua fé, os seus valores e a sua vida pessoal e profissional. Com este ato de coragem e de abnegação, Arnaud Beltrame guindou-se ao patamar restrito daqueles que têm direito a ser qualificados como verdadeiros heróis.

Na passada sexta-feira, a já rica História de França ganhou um novo protagonista e um novo Herói. E, com ela e a par dela, a História da Europa e do Ocidente, deste Ocidente tão fragilizado e debilitado, ganhou um novo símbolo, um novo ícone, um novo protagonista que, na luta contra o terrorismo islâmico, ofereceu o que de mais precioso e de mais valioso possuía – a sua própria vida – para salvar a vida de um refém e para permitir eliminar um assassino terrorista islamista. E fê-lo, conforme se veio a saber após o momento da sua morte, em nome da fé e dos valores que professava – que eram os valores fundacionais desse mesmo Ocidente.

Nesta época quaresmal, que nos convoca a recordar o supremo mistério do catolicismo ocorrido há mais de dois mil anos, em nome de valores cristãos e ocidentais, houve quem voltasse a dar e a sacrificar a sua vida sem nada pedir em troca e em benefício do seu semelhante. Triste, mas esperançosa coincidência.

 

Post-scriptum: na semana passada, como vimos, a Europa em geral e a França em particular ganharam um novo herói, Arnaud Beltrame de seu nome; dias depois, e ao fim de cinco meses a brincar com a justiça europeia, com a justiça espanhola e com a justiça belga, Charles Puigdemont acabou detido à entrada em território alemão. Um pseudo-herói de pés-de-barro, um mito e um logro, esboroou-se e esfumou-se. Tanto esticou a corda, que a corda acabou por partir. É bom que assim tenha acontecido; e que estes pseudo-heróis e estes mitos sob a forma humana saiam, definitivamente, de cena, para o palco poder ser todo ocupado por aqueles que são merecedores de todas as nossas honras e de todos os nossos respeitos. Descanse em paz, senhor tenente-coronel Arnaud Beltrame. A França, a Europa e o Ocidente estão-lhe agradecidos.

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