Um país refém do passado

O Brasil está em mim, mais do que eu estou no Brasil. Inevitabilidades da vida trouxeram-me ao país onde os meus pais – ambos portugueses – se conheceram, apaixonaram e casaram. Por acaso não sou brasileira. E esse “por acaso” faz toda a diferença quando me sento a escrever uma crónica sobre as eleições presidenciais […]

O Brasil está em mim, mais do que eu estou no Brasil. Inevitabilidades da vida trouxeram-me ao país onde os meus pais – ambos portugueses – se conheceram, apaixonaram e casaram. Por acaso não sou brasileira. E esse “por acaso” faz toda a diferença quando me sento a escrever uma crónica sobre as eleições presidenciais no Brasil.
Ao mesmo tempo que sou “quase” brasileira, tenho postura de europeia e isso faz-me ter forçosamente uma visão diferente de quem nasceu, cresceu e permanece aqui.

Acaba por ser essa dicotomia que me permite, acho, ter a distância necessária para ver algumas coisas de outro prisma.
Conseguindo olhar de fora, acabo por concluir que moro num país, de certa forma, refém do passado. Refém dos escândalos do governo de Collor, dos traumas da ditadura e, indo mais longe, de um síndrome coletivo de povo colonizado.

Perdoem-me os brasileiros, que tanto amo, se o reparo os ofende. E não interprete mal quem me lê. A prisão ao passado não define o povo brasileiro, repleto de qualidades. Apenas explica o momento que o país vive e os desafios que enfrenta, a nível social e político.

Sob esta ótica, os eleitores de ambos os candidatos também são prisioneiros de um passado recente. Durante a campanha eleitoral foi flagrante a escassez de medidas para o futuro. Os eleitores de Aécio levantaram incessantemente o estandarte de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e o fim da inflação, enquanto os petistas desfilaram a todo o momento no carro alegórico de Lula da Silva e dos seus programas sociais bem sucedidos.
Aécio, porém, foi obrigado a focar-se um pouco mais nas suas propostas para os próximos quatro anos, já que os louros de FHC, na ótica da maioria dos eleitores, já haviam perecido. Ao contrário, Dilma conseguiu “surfar” com tranquilidade no passado recente do seu antecessor. O Bolsa Família e o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) foram as principais bandeiras da candidata à reeleição.

Com base neste legado, Dilma Rousseff não perdeu a sua força. Apesar das sucessivas crises e escândalos políticos, entre eles o Mensalão – e mais recentemente as denúncias de corrupção na Petrobrás -, o PT voltou a vencer nas urnas. Vitória que parecia improvável, em junho do ano passado, quando os brasileiros saíram para as ruas pedindo mudança.
Com as devidas diferenças, todos nós recordamos as eleições legislativas de 2011 em Portugal. O governo de José Sócrates, desgastado, acabou por perder para Pedro Passos Coelho. Tratava-se de uma inevitabilidade da democracia, diria.

No entanto, no Brasil, as coisas não se processam da mesma forma. Aqui, os eleitores vibram com os seus candidatos como se fossem clubes de futebol. Não estudam as propostas dos candidatos tanto quanto deviam. Não escolhem aquele que tem melhores planos ou medidas concretas e mais consistentes. Votam, mais do que num partido, no que acreditam que determinado partido representa. Muitas vezes, infelizmente, com base em rótulos e preconceitos.

O país recolhe agora os cacos da controvérsia eleitoral de proporções nunca antes vistas no país. Ao contrário do que acredita a maioria dos apoiantes de Aécio, a vitória de Dilma não irá, necessariamente, representar a calamidade do país, assim como dificilmente a vitória do tucano seria a salvação para todos os males do legado Lulopetista.
Mas, enquanto os apaixonados por Dilma brindam à reeleição da chamada “Coração Valente”, aquele que é apenas a favor da Democracia, lamenta a falta de alternância no poder.

 

do outro lado
Juliana Pereira Martins
Jornalista

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