Um país sem pensamento crítico

O país está anestesiado, com uma classe média jovem em ascensão que anseia ganhar a “milena” mensal e continuar a viver com os pais, enquanto a classe média dos pais já se acomodou há muito e tem salvaguardas para crises económicas.

Falamos de Portugal. Parece um país anestesiado. Os poucos movimentos sociais que se ouvem servem apenas para defender interesses de corporações, caso dos professores, enfermeiros ou bancários. O país não discute estratégicas dentro a União Europeia, não discute modelos económicos que nos coloquem fora de uma potencial crise ou de uma nova intervenção da troika. Não discute os graves problemas demográficos nem a explosiva situação do financiamento da segurança social a médio prazo. A silly season não é apenas agosto, é o ano inteiro.

Ou melhor, o país está anestesiado, com uma classe média jovem em ascensão que anseia ganhar a “milena” mensal e continuar a viver com os pais, enquanto a classe média dos pais já se acomodou há muito e tem salvaguardas para crises económicas. O país assiste a discursos perturbadores, mas os eleitores não reagem. O Governo, e em particular António Costa, não dá mostras de impaciência, mas só por fora porque, internamente – e a fazer fé no que se diz no inner circle do Executivo –, o PM terá dado indicações a todos os governantes para correrem o país, para se mostrarem, para aparecerem juntos dos presidentes de Câmara, para visitarem instituições onde a comunicação social esteja presente.

O problema é que o número de eleitores ativos é cada vez menor. Um parlamento elege-se, hoje, por menos de metade dos eleitores e a acreditar em Paulo Rangel as próximas eleições poderão ter deputados eleitos por um terço dos cidadãos de maior idade. As próprias sondagens são erróneas pois não têm em consideração a realidade social da abstenção, dos votos em branco e nulos como muito bem tem salientado o dirigente do PS Daniel Adrião. É caso para o parafrasear quando diz que “as maiorias políticas no parlamento corresponderão a minorias sociais”.

Mas este país de espelhos e de jogos de poder, que só interessa ao círculo dos políticos com ambições de poder, vive de geringonças de momento, de estratégias entre grupos políticos com motivações particulares. E, em abono da verdade, os eleitores também não querem responsabilidades de gestão, de assuntos de política, de sociedade e de economia. Há um claro desfasamento entre os cidadãos e os analistas mais avisados. Recordemos dois documentos desta semana com conclusões preocupantes. Primeiro foi o relatório do Conselho de Finanças Públicas, da responsabilidade de Teodora Cardoso, que sumariamente diz que o país tem 55% de probabilidades de entrar em recessão no médio prazo. Depois foi um estudo muito interessante da seguradora Crédito Y Caución, que diz que existem ameaças para a economia portuguesa que superam as oportunidades. Refere que “o aumento das exportações (está em) risco de desaceleração” e que a economia “está condicionada no seu mercado interno, pelo excessivo endividamento do Estado não reformado, pelas fragilidades das instituições financeiras com muitas imparidades e contingências”.

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