Uma piada sobre a nova guerra fria

Herdeiros de uma literatura carregada de drama e sofrimento – de Dostoievski a Tolstoi, entre outros –, os russos têm demonstrado recentemente uma veia mais humorística, usando ironia para reagir a temas que dificilmente poderiam ser mais sérios: a vida e  morte (de espiões), a guerra (fria) e a frágil paz diplomática.

O assassinato de um ex-espião russo, Sergei Skripal, e da filha deste, por envenenamento em Inglaterra, provocou uma resposta forte. Mais de vinte países culpam Moscovo pelo ato e já expulsaram dezenas de diplomatas russos. O Kremlin enviou para casa 23 diplomatas britânicos e esta semana ameaçou ainda com uma “resposta dura” às expulsões.

No entanto, há outro aspeto da reação russa que é deveras preocupante. Várias embaixadas russas recorreram ao Twitter para lançar uma campanha que Theresa May classificou de “sarcasmo, desprezo e provocação”. Olhando para os tweets, é dificil não concordar com a primeira-ministra britânica.

Após os Estados Unidos terem encerrado o consulado em Seattle, a conta da diplomacia russa na rede social perguntou aos seguidores “qual é o consulado que você fecharia, se pudesse decidir?”.

A embaixada russa em Londres publicou uma foto de um termómetro enterrado no gelo, acompanhada da seguinte piada: “a temperatura das relações russo-britânicas cai para -23, mas nós não temos medo do clima frio”.

A ironia é desconcertante, mas a mensagem não deixa margem para dúvidas – a Rússia de Vladimir Putin não tem, nem nunca teve, receio de uma nova guerra fria com o Ocidente.

Há dez anos, no livro “A Nova Guerra Fria:  a Rússia de Putin e a ameaça ao Ocidente”, Edward Lucas argumentava que o novo conflito não se centra, ao contrário da guerra fria original, em ideologia, mas num desejo de obter poder sobre o fornecimento de energia ao Ocidente.

Na década seguinte, muitas das previsões de Lucas vieram a provar-se certeiras. Putin viria a aproveitar-se da distração dos inimigos. Os Estados Unidos e a Europa afundaram-se na maior crise económica em várias décadas. O projeto europeu foi abalado pelas divisões entre os países ricos e os pobres e, logo a seguir, pelo Brexit. O Daesh veio trazer um inédito e urgente desafio para os líderes ocidentais em terreno doméstico. A guerra na Síria demonstra a fraca capacidade de reação organizada do eixo atlântico face a uma tragédia interminável.

Durante este período, Putin fortaleceu a posição interna, seja pela via da repressão (o assassinato do opositor Boris Nemtsov, em 2015, foi o incidente mais óbvio), ou do uso da agressividade externa, na Crimeia e na Ucrânia, para fomentar o nacionalismo.

Pelo meio terá conseguido ainda interferir nas eleições do velho inimigo, os Estados Unidos, alegadamente ajudando a colocar Donald Trump na Casa Branca.

Edward Lucas explica que enquanto Putin parece estar a usar diversos métodos agressivos para atingir os objetivos, o Ocidente tem menos margem de manobra. As possibilidades estão limitadas a pouco mais do que expulsar centenas de diplomatas para circunscrever, de certa forma, a capacidade russa de obter informação ou de impor sanções.

Mais do que isso é difícil. E é por terem noção disso que, provavelmente, estão a oferecer aos russos que apoiam Putin tantos motivos para dar uma boa gargalhada.

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